O sistema como protagonista [Brasil x Escócia]

Vinícius Júnior marcou em todas as três partidas da fase de grupos e participou diretamente de seis dos sete gols do Brasil, igualando marcas de Jairzinho, Ronaldo, Romário e Rivaldo. Os números impressionam. Mais revelador é o sistema que os tornou possíveis.

Preso à ponta esquerda em ciclos anteriores, onde frequentemente enfrentava dobras de marcação, Vinícius passou a circular pela meia-esquerda e pelas entrelinhas. É o mesmo posicionamento que o consagrou no Real Madrid na temporada 2023/24, aproximando-o da área e ampliando seu repertório ofensivo. Ancelotti não criou um novo Vinícius para a seleção. Apenas reproduziu um contexto que já havia dado resultado no clube.

A mudança, porém, não depende apenas dele. O losango no meio-campo reorganizou toda a equipe. Casemiro dá sustentação, Paquetá e Bruno Guimarães aproximam o jogo da última linha adversária e Mateus Cunha ocupa os espaços como falso nove. A estrutura encurta as distâncias entre os setores, libera os laterais e cria os corredores internos que Vinícius explora. Paquetá passou a encontrá-lo com frequência em profundidade. Bruno Guimarães finalmente reproduziu na seleção o ritmo e a precisão que exibe há temporadas no Newcastle. Cunha pressionou, abriu espaços e ainda marcou o terceiro gol.

A organização defensiva sustenta esse desenho. Com apenas 52% de posse no primeiro tempo contra a Escócia, o Brasil aceitou defender mais baixo, compactou as linhas e atraiu o adversário para acelerar as transições. Danilo, alvo de críticas antes da Copa, fez sua fase de grupos mais consistente pela seleção. Gabriel Magalhães, Marquinhos, Douglas Santos e Alisson completaram um sistema que concedeu muito pouco aos adversários. Não por acaso, Ancelotti costuma repetir que Copas são vencidas por equipes capazes de defender bem e decidir na frente.

Há quem veja esse modelo como excessivamente reativo. Mata-matas, porém, raramente premiam quem controla a bola durante mais tempo. Premiam quem reconhece o tipo de jogo que a competição exige. Pela primeira vez em muitos anos, o Brasil parece confiar mais no funcionamento coletivo do que na inspiração individual. E talvez seja justamente isso que transforme Vinícius Júnior no protagonista desta seleção