Falha de Cobertura: a arte de perder sem perder a piada

O futebol brasileiro talvez tenha produzido mais conceitos do que títulos nos últimos anos. Em entrevista ao Provoca, os criadores do Falha de Cobertura desfilaram uma coleção de ideias que explicam melhor a experiência de torcer do que qualquer estatística.

Tudo começa com uma questão jurídica. Ao comentar os brindes que acompanham o recém-lançado livro Guia da Copa, Caito Mainier interrompe a conversa para esclarecer que os itens colecionáveis não podem ser chamados de figurinhas. Pela legislação, são “adesivos autocolantes”. Nem a nostalgia escapa da burocracia.

A leitura que fazem do futebol vai além do placar. Eles também refletem sobre derrotas. Existe a humilhação histórica, que deixa cicatrizes. Mas existe algo considerado ainda pior: a derrota comum. Para Daniel Furlan, há algo especialmente melancólico em perder sem escândalo ou trauma coletivo. “É como se a gente tivesse perdido um ônibus, você fica triste, mas tudo bem.” Incomoda, mas a vida segue.

Da mesma linha de raciocínio nasceu a ideia da “contratação desfalque”. O jogador chega machucado e sua principal contribuição é não estar disponível. Sua ausência passa a funcionar como explicação permanente para qualquer fracasso da equipe.

Outra teoria desmonta a imagem romântica do reserva solidário. Quem está no banco não fica feliz pelo sucesso do titular. Aguarda apenas um tropeço que lhe permita entrar em campo.

Esses fracassos geram vitórias. Todos os anos, eles elegem os jogadores que mais decepcionaram suas torcidas. Como explica Caito Mainier, o critério não é técnico, mas emocional. A inspiração é quase um arquétipo do futebol: aquele meio-campista habilidoso, canhoto, que chega cercado de expectativa, faz o torcedor acreditar que encontrou um craque e, pouco depois, transforma esperança em frustração.

Por trás dessas ideias estão dois personagens já clássicos do humor esportivo. Daniel Furlan interpreta o Craque Daniel, um comentarista tão apaixonado quanto inconformado com o futebol. Caito Mainier vive o professor doutorando Cerginho da Pereira Nunes, especialista em teorias improváveis e convicções inabaláveis.

Talvez essa seja a principal contribuição do projeto. Mostrar que o futebol raramente se resume ao que acontece em campo. Grande parte do jogo acontece nas expectativas e nas teorias que inventamos para sobreviver ao resultado.